Qual é a PWR da minha carteira?
Um estudo com 20 anos de dados reais
- Qual é a carteira de longo prazo que eu utilizo para a minha própria aposentadoria, seu desempenho real ano a ano de 2006 - 2026 e seu CAGR real em janelas móveis de diferentes tamanhos
- Como lidei com a restrição do tamanho do histórico de dados na simulação da PWR
- Qual foi o passo a passo para simular a PWR usando bootstrap estacionário
- Os resulados da PWR em várias taxas de sucesso, não apenas um número único, com calculadora interativa
- As verificações de robustez do método e as limitações honestas do estudo
- Referências clássicas e atuais sobre cálculo de PWR
Em outro artigo desta série, expliquei a diferença entre SWR (taxa segura de retirada, horizonte finito) e PWR (taxa perpétua de retirada, horizonte infinito), demonstrando os conceitos com exemplos mais simples. Neste artigo, vamos aprofundar um pouco mais e fazer cálculos para uma carteira real, a que eu mesmo uso nos meus próprios investimentos. Para nivelamento rápido, entenda que a PWR é a taxa de retirada que mantém, perpetuamente e em valores reais, o capital do início da aposentadoria.
01A carteira
Você verá um portfólio de longo prazo, para fins de aposentadoria, selecionado com bastante critério para a minha própria realidade (não é recomendação de investimentos, não copie). Neste artigo não vou explicar por que e como escolhi as classes, os ativos e os pesos — isto é tópico de outra conversa. Se você quiser testar outros pesos ou outra combinação de ativos antes de seguir, dá para comparar composições diferentes lado a lado no comparador de composição de carteira.
Para maximizar diversificação, diminuir custos, diminuir gasto de tempo, melhorar consistência de retorno e aumentar a eficiência tributária, montei esta carteira usando apenas ETFs passivos negociados na B3. Como esses fundos têm histórico curto demais para uma análise robusta, usei o índice ou ativo subjacente de cada um como proxy, descontando a taxa de administração do ETF. São cinco ativos, com pesos fixos e rebalanceamento mensal.
| ETF | Peso | Proxy usado | Taxa adm. | Ajuste cambial |
|---|---|---|---|---|
| VWRA11 | 30% | FTSE All-World (Total Return, USD) | 0,49% a.a. | PTAX USD/BRL |
| DIVO11 | 20% | IDIV (B3, Total Return) | 0,50% a.a. | — |
| B5P211 | 40% | IMA-B5 | 0,20% a.a. | — |
| CDIB11 | 5% | CDI | 0,15% a.a. | — |
| GOLD11 | 5% | Ouro (USD/oz) | 0,57% a.a. | PTAX USD/BRL |
Qual é o tamanho/período do histórico de dados e quais as consequências práticas dessa escolha para a análise?
Para rodar simulações computacionais a fim de encontrar a PWR da carteira, é importante um volume substancial de dados históricos. Assim, ao idealizar a metodologia deste exercício, busquei por uma série de pelo menos duas décadas. Quis capturar a performance da carteira de Jan/2006 até Junho/2026, porque este é um período com cinco acontecimentos de grande stress no mercado de capitais - Subprime (2008), Crise Europeia (2011), Recessão Brasil (2015), Covid-19 (2020) e Inflação Global (2022). Por outro lado, esse período não contempla a época de Meta-Selic muito acima de 15% ao ano no Brasil, o que é positivo, porque tal cenário não parece fazer mais sentido na macroeconomia brasileira.
Como nenhum dos cinco ETFs selecionados tem histórico suficiente na B3 para uma análise de 20 anos, precisei utilizar o índice (ou ativo) subjacente de cada um como aproximação, descontando a taxa de administração. É claro que, como toda proxy, há imperfeição, por exemplo: CDIB11 não é CDI puro, porque tem NTN-B Longa junto, assim como B5P211 não segue o IMA-B5, mas sim uma variação dele com mecanismo de controle do Prazo Médio de Repactuação (PMR) dos títulos, o IMA-B5 P2. Isso não é um problema, porque não queremos ser milimétricos nos resultados, queremos ser razoáveis. Para fins de planejamento financeiro, ainda mais se tratando de PWR, essa lógica é absolutamente suficiente.
Ver gráfico: desempenho da carteira ano a ano (backtest 2006–2026)
Retorno real (já descontado o IPCA) de cada ano do backtest. Passe o cursor sobre uma barra para ver o valor exato daquele ano.
Ver gráfico: CAGR real em janelas móveis (1, 3, 5 ou 10 anos)
Taxa de crescimento anual composta (CAGR), em termos reais, calculada em janelas móveis de diferentes durações ao longo do backtest. Janelas mais curtas mostram mais volatilidade; janelas mais longas convergem para o retorno de longo prazo da carteira.
02Como 20 anos de dados se transformaram em milhares de futuros possíveis?
Antes de ver os números, vale entender alguns conceitos fundamentais para a simulação.
"O que é esse tal de bootstrap?"
O período de 20 anos de dados históricos da carteira não é suficiente pra dizer que "retirar X% é seguro para preservar o patrimônio perpetuamente " — ele é apenas um caminho que os mercados percorreram, entre infinitos outros que poderiam ter acontecido. Se a crise de 2008 tivesse vindo em outro momento, ou se dois anos ruins seguidos tivessem caído logo no início em vez de no meio, o resultado poderia ser bem diferente. Achar a PWR sem simulação computacional seria pressupor que os próximos 20, 40, 60, 80, X anos, seriam exatamente como foram os 20 anos que acabaram de ocorrer, o que é praticamente impossível.
A técnica de bootstrap resolve isso assim: imagine cortar esses 20 anos em pedaços de cerca de 1 ano cada — como cartas de baralho, só que cada carta é "um ano de retornos reais da carteira". Agora embaralhe essas cartas e vá puxando uma atrás da outra, com reposição (a mesma carta pode sair mais de uma vez), até formar uma sequência de 60 anos. Repita esse embaralhamento 10.000 vezes, e você tem 10.000 "histórias alternativas" — todas construídas com pedaços de dados reais, mas em ordens diferentes, que nunca aconteceram exatamente assim, mas poderiam ter acontecido.
Por que não simplesmente sortear meses aleatórios um por um, soltos, sem manter os pedaços de 1 ano juntos? Porque isso apagaria um padrão real e importante dos mercados: crises andam em grupo. Um mês ruim tende a vir seguido de outro mês ruim (pense em 2008 ou início de 2020) — testamos isso diretamente nos dados da carteira, e o padrão está lá. Cortar em pedaços de ~1 ano e embaralhar esses pedaços preserva esse "clima" de mercado dentro de cada pedaço, em vez de embaralhar mês a mês e destruir essa informação.
"Se a PWR é 'perpétua', por que simular só 60 anos?"
Porque simular literalmente um número infinito de anos não é possível num computador — e nem precisa ser. Fizemos o teste: simulamos a mesma carteira em 40, 60, 80 e 100 anos, e vimos quanto a taxa de retirada calculada mudava a cada vez que se aumentava o horizonte.
O resultado: entre 40 e 60 anos, a taxa ainda muda um pouco. Mas entre 80 e 100 anos, ela quase não se mexe mais — a diferença é menor que um centésimo de ponto percentual. 60 anos já está perto o suficiente do "ponto de estabilização" pra servir como um substituto confiável de "para sempre".
"Por que a retirada é mensal, e não uma vez por ano?"
Porque é assim que uma pessoa de fato vive: aposentados não sacam o dinheiro do ano inteiro em janeiro e guarda embaixo do colchão até dezembro. A cada mês, sai uma fatia (1/12 da taxa de retirada anual), sempre no mesmo valor em poder de compra — se a inflação sobe, o valor sacado acompanha, porque toda a simulação já trabalha em termos reais desde o início. É também a abordagem mais usada em réplicas modernas dos estudos clássicos de aposentadoria, que hoje em dia têm acesso a dados mensais (os estudos originais dos anos 1990 só tinham dados anuais disponíveis, e por isso retiravam uma vez por ano).
03O passo a passo
Juntando tudo: da planilha de dados brutos até o número final de PWR.
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Montar os retornos mensais reais da carteiraJuntei os 5 ativos pelos pesos-alvo (40/30/20/5/5), com rebalanceamento mensal, descontei a taxa de administração de cada ETF e corrigi tudo pela inflação brasileira (IPCA). O resultado são 246 "fotos mensais" de como essa carteira teria se comportado, em poder de compra real, de jan/2006 a jun/2026 (backtest).
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Verificar se os meses "andam juntos"Testei estatisticamente se meses ruins tendem a vir agrupados (explicado na seção acima) e a resposta foi um "sim". Isso definiu o tamanho dos "pedaços" usados no embaralhamento do próximo passo — cerca de 12 meses cada.
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Embaralhar e esticar até 60 anosBootstrap estacionário (a técnica de embaralhar pedaços de ~1 ano, com reposição, explicada na seção acima). Gerei 10.000 trajetórias de 60 anos cada, todas construídas a partir dos mesmos 246 meses reais, só que recombinados de formas diferentes.
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Testar cada taxa de retirada, mês a mêsPara uma taxa de retirada candidata (ex: 5% ao ano), simulei a carteira sacando 1/12 desse valor todo mês, ao longo dos 60 anos, em cada uma das 10.000 trajetórias. Uma trajetória é "sucesso" se o patrimônio real no final ainda está igual ou maior que o valor inicial — mesmo que tenha caído no meio do caminho e se recuperado depois.
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Achar a taxa certa por tentativa e erroTestei várias taxas de retirada até achar a maior que proporcionasse 90% ou 95% de sucesso nas 10.000 trajetórias. Repeti tudo com o dobro e o quádruplo de trajetórias, e com horizontes diferentes, só para confirmar que o resultado não estava mudando por acaso — e não mudou.
04Resultados
A PWR não é um número único — é uma curva. Quanto maior a taxa de retirada, menor a probabilidade de que o patrimônio real se preserve ao final dos 60 anos em todas as carteiras.
| Taxa de sucesso | PWR (real, a.a.) | Nunca-drawdown* |
|---|---|---|
| 75% | 5,880% | 10,16% |
| 80% | 5,687% | 11,39% |
| 85% | 5,443% | 12,63% |
| 90% | 5,163% | 14,02% |
| 95% | 4,752% | 16,57% |
| 99% | 4,022% | 20,07% |
* Fração de trajetórias em que o patrimônio real nunca cai abaixo do valor inicial em nenhum momento — métrica complementar mais estrita que a definição de PWR usada (que permite drawdown temporário, desde que recupere até o final do horizonte).
05Calculadora: teste a taxa de retirada
Ajuste o slider para ver a taxa de sucesso simulada para qualquer taxa de retirada entre 1% e 9% ao ano, em termos reais, para esta carteira específica.
Simulador de PWR
Simulação sobre a carteira 40/30/20/5/5 (B5P211/VWRA11/DIVO11/CDIB11/GOLD11) descrita neste artigo, com os retornos históricos de 2006–2026 reamostrados via bootstrap estacionário. Não é recomendação de investimento e desempenho passado não garante resultado futuro.
06Detalhes técnicos: verificação de robustez do método
Toda escolha metodológica tem um grau de arbitrariedade. O importante é esclarecer as escolhas e testar o quão coerentes elas são.
Tamanho de bloco do bootstrap
O resultado é estável na faixa de 6 a 12 meses (variação de apenas ~0,01 p.p.), mas começa a subir de forma mais perceptível em blocos de 18-24 meses. Isso acontece porque, com apenas 246 meses de amostra, blocos muito longos deixam poucas combinações possíveis de reamostragem — o bootstrap passa a produzir trajetórias parecidas demais com a única história observada, o que tende a desfigurar a PWR estimada. A escolha de 12 meses está na região estável da curva, não na região distorcida.
Horizonte de simulação
| Horizonte | PWR@90% | PWR@95% |
|---|---|---|
| 40 anos | 5,071% | 4,615% |
| 60 anos (usado) | 5,167% | 4,741% |
| 80 anos | 5,187% | 4,774% |
| 100 anos | 5,196% | 4,785% |
A diferença entre 80 e 100 anos já é menor que 0,01 p.p. — a curva está claramente achatando. 60 anos captura a maior parte da convergência para o valor "verdadeiramente perpétuo", que deve estar apenas alguns centésimos de ponto percentual acima do que reportamos aqui.
Piso de sanidade: pior janela histórica real
Sem qualquer reamostragem — olhando só para a história realmente observada — a pior janela rolante de 10 anos teve CAGR real de 4,49% a.a., na mesma ordem de grandeza da PWR@95% calculada (4,75%). É um sinal de consistência: o resultado simulado não está artificialmente otimista frente ao que de fato aconteceu no pior momento observado.
07Limitações do estudo
- Amostra de ~20 anos para estimar um comportamento pensado para "sempre" — é uma extrapolação relativamente longa a partir de uma janela de dados curta.
- Os índices usados no lugar dos ETFs não capturam eventuais diferenças de rastreamento entre o ETF real e o índice que ele persegue (tracking error).
- Retornos passados não necessariamente se repetirão no futuro. Por mais que tenhamos usado bootstrap, os blocos de 1 ano que reamostramos pertencem ao passado, que se fez com acontecimentos específicos. Momentos inéditos de bull ou bear market podem surgir.
- PWR e SWR são coisas completamente diferentes! A ideia da "regra dos 4%" não tem conexão direta com este artigo, porque ela é uma SWR de 30 anos, simulada com dados anuais de 1926 a 1995 para uma carteira de 50% RV e 50% RF dos EUA.
- Carteiras devem servir às necessidades específicas de cada objetivo de cada investidor. Todas são diferentes entre si e têm um histórico (backtest) diferente, logo, não faz sentido tentar achar uma "PWR para o Brasil" ou "PWR Universal".
- Um bom cálculo de PWR precisa de simulação computacional, onde os dados históricos são utilizados para criar milhares de futuros possíveis.
- Encontrar a PWR depende da taxa de sucesso desejada, ela não é um número único. Quanto mais próximo do 100% de sucesso (o que é desnecesariamente cauteloso), muito menor será a PWR.
- A limitação da amostra de dados pode ser contornada usando proxies e técnicas como bootstrap estacionário, mas não muda o fato de que a limitação ainda está lá.
- Com Python e Inteligência Artificial, você mesmo pode calcular a PWR para a sua carteira de aposentadoria. Achar esse dado de maneira personalizada é muito melhor do que usar regras de bolso.
- PWR e SWR são assuntos que só fazem sentido se você possui uma estratégia de investimento muito bem montada e seguida com disciplina. Não faz sentido pensar em taxa de retirada se nem uma carteira "sólida" você tem.
O que você pode aprender na sequência?
Simulação de SWR em diferentes janelas com dados reais em uma carteira de Aposentadoria.
- BENGEN, William P. Determining withdrawal rates using historical data. Journal of Financial Planning, v. 7, n. 4, p. 171-180, out. 1994.
- COOLEY, Philip L.; HUBBARD, Carl M.; WALZ, Daniel T. Retirement savings: choosing a withdrawal rate that is sustainable. AAII Journal, v. 20, n. 2, p. 16-21, fev. 1998.
- FORSYTH, Peter A. A stochastic control approach to defined contribution plan decumulation: "the nastiest, hardest problem in finance". arXiv preprint, arXiv:2101.02760, 2021. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2101.02760. Acesso em: 09 ago. 2026.
- PATTON, Andrew; POLITIS, Dimitris N.; WHITE, Halbert. Correction to "Automatic block-length selection for the dependent bootstrap" by D. Politis and H. White. Econometric Reviews, v. 28, n. 4, p. 372-375, 2009.
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- POLITIS, Dimitris N.; WHITE, Halbert. Automatic block-length selection for the dependent bootstrap. Econometric Reviews, v. 23, n. 1, p. 53-70, 2004.
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- THE POOR SWISS. Updated Trinity study for 2026 — more withdrawal rates! Disponível em: https://thepoorswiss.com/updated-trinity-study/. Acesso em: 09 ago. 2026.
- Proxy do B5P211 = IMA-B5. Disponível em: https://data.anbima.com.br/indices/consulta/ima/resultados-diarios/ima-b-5. Acesso em: 09 ago. 2026.
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- Proxy do VWRA11 = FTSE All World (USD). Disponível em: https://curvo.eu/backtest/pt/indice/ftse-all-world?currency=usd. Acesso em: 09 ago. 2026.
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- Dados sobre IPCA:https://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid=38590&module=M. Acesso em: 09 ago. 2026.
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