Market timing funciona? O que a ciência diz sobre acertar o momento certo
Dez estudos — de testes estatísticos clássicos a dados reais de conta de investidor — para responder com evidência, não com intuição, se vale a pena tentar prever a hora de comprar e vender.
- O que a ciência realmente testa quando pergunta se "market timing funciona"
- Por que a matemática já rema contra o timing antes de qualquer viés comportamental entrar em cena
- O que estudos com dados reais de conta de investidor mostram sobre o custo do timing malfeito
- O canal comportamental específico — venda em pânico — que explica boa parte desse custo
- Se existe alguma versão do timing que compensa, e o que fazer com essa informação na prática
Se você já decidiu ficar investido e a dúvida agora é só sobre parcelar ou não uma quantia grande recebida de uma vez, o artigo sobre DCA vs. Lump Sum cobre essa decisão específica. Aqui a pergunta é anterior e mais ampla: market timing é a tentativa de prever se o mercado vai subir ou cair e ajustar a carteira antes disso acontecer — comprando mais quando se espera alta, vendendo ou ficando em caixa quando se espera queda — em vez de simplesmente ficar sempre investido.
Ajustar a carteira entre ativos de risco e caixa (ou renda fixa) na expectativa de comprar antes das altas e vender antes das quedas.
Estratégia oposta ao timing: definir uma alocação e mantê-la, sem tentar prever o momento certo de entrar ou sair.
O retorno que o investidor de fato viveu, considerando quando cada real entrou ou saiu da carteira — diferente do retorno do ativo em si.
A diferença entre o retorno do ativo (buy-and-hold) e o retorno que o investidor realmente obteve, dado o momento de suas entradas e saídas.
Percentual de vezes em que uma previsão de alta ou queda do mercado se confirma — o critério que os testes estatísticos de timing usam para medir habilidade.
Tendência de superestimar a própria capacidade de prever ou escolher bem, um dos vieses mais documentados em finanças comportamentais.
Liquidação abrupta de uma parte grande da carteira de risco, tipicamente durante quedas fortes de mercado.
01O que a ciência testa quando fala em timing
Você já deve ter sentido isso. O mercado despenca, e uma voz dentro de você sussurra "eu devia ter vendido semana passada". Ou dispara, e a mesma voz cochicha "eu devia ter comprado mais cedo". Esse é o instinto por trás do market timing, e ele é traiçoeiro justamente porque, olhando para trás, o momento certo sempre parece óbvio.
É aí que mora a armadilha da pergunta "market timing funciona?": qualquer pessoa consegue, diante de um gráfico já formado, apontar o dia exato em que deveria ter vendido e o dia exato em que deveria ter comprado de volta. Isso não é timing — é retrospectiva. A pergunta que a ciência de fato testa é outra, e bem mais dura: existe alguém, hoje, sem saber o futuro, capaz de prever a direção do mercado com acerto suficiente para que valha a pena tentar, líquido de custos?
Essa reformulação muda o padrão de prova. Não basta mostrar que existe uma sequência de decisões que teria dado certo — isso sempre existe, em qualquer ativo, em qualquer período. É preciso mostrar habilidade repetível, testada estatisticamente, fora da amostra usada para descobri-la. É essa vara mais alta que o restante deste artigo segue, em três etapas que vão chegando cada vez mais perto de você: primeiro, o que a matemática pura já diz sobre a tentativa de timing, antes de qualquer erro humano entrar em cena; depois, o que investidores reais — em fundos, no mercado como um todo — de fato conseguiram; por fim, o teste mais direto que existe hoje, aplicado à conta de um investidor individual.
02O que a matemática diz, mesmo sem viés nenhum
Comece pela primeira etapa. Antes de qualquer discussão sobre excesso de confiança ou pânico, vale entender por que o timing já nasce em desvantagem matemática — mesmo supondo um investidor perfeitamente racional, sem nenhum dos vieses comportamentais que aparecem mais adiante neste artigo.
William Sharpe1, em 1975, fez o teste mais direto possível: quão bom um investidor precisaria ser para que trocar entre ações e caixa valesse a pena? Usando dados de 1929 a 1972, ele mostrou que um "timer perfeito" — que sempre acerta a direção do próximo ano — teria obtido 14,86% ao ano, contra 10,64% ao ano de quem simplesmente ficasse investido o tempo todo. Um resultado e tanto, mas Sharpe não parou aí: ele calculou também quanto de acerto um investidor precisa ter, sem ser perfeito, para que o timing ainda compense, líquido do risco de errar. A conclusão, na frase do próprio autor, ficou como uma das mais citadas da área: a menos que o investidor consiga prever se o mercado vai subir ou cair "com considerável precisão — pelo menos sete em cada dez vezes" —, ele deveria evitar por completo tentativas de timing.
Vinte e seis anos depois, Gunter Bauer e Julie Dahlquist2 testaram a mesma ideia por outro ângulo: em vez de perguntar "qual taxa de acerto é necessária", eles perguntaram "quão difícil é vencer a sorte pura". Usando dados da Ibbotson de 1926 a 1999 para seis classes de ativos americanos, os autores compararam o resultado de simplesmente ficar investido contra todos os caminhos possíveis de alternância entre ações e títulos de curto prazo — uma espécie de roleta de todas as trocas que um investidor poderia ter feito, certas ou erradas, ao longo do período.
O resultado, no par mais testado do estudo (ações large-cap vs. títulos de curto prazo): comprar e manter ações superou, em média, 66,22% de todos os caminhos possíveis de troca mensal, e 80,41% dos caminhos possíveis de troca anual entre 1930 e 1999. Ou seja, para bater o buy-and-hold só de tentar acertar o timing, um investidor precisaria ficar, de forma consistente, entre os 20% e 35% melhores resultados de uma roleta — não é impossível em um ano isolado, mas é uma barra alta para sustentar ano após ano.
Existe também uma explicação puramente matemática para por que o resultado mais provável de uma tentativa de timing tende a ficar abaixo da mediana. Um cálculo de 20173 — ainda sem revisão por pares, então tratado aqui só como intuição matemática, não como evidência empírica — mostra que, como os retornos de mercado se acumulam de forma multiplicativa (um ano bom multiplica o ano anterior, não soma a ele), a distribuição de resultados possíveis de uma estratégia de timing fica assimétrica: a moda — o resultado mais provável de acontecer — cai abaixo da mediana. Na prática, isso significa que o cenário mais provável para quem tenta cronometrar o mercado é um resultado pior do que "a metade do caminho", mesmo antes de qualquer erro de julgamento entrar em cena.
Nenhum desses três resultados assume qualquer tipo de viés psicológico do investidor — são testes de pura probabilidade e matemática de retorno composto. Isso importa porque estabelece um piso: mesmo um investidor hipotético, perfeitamente racional e sem nenhum dos vieses comportamentais discutidos nas próximas seções, já enfrentaria essa barra alta de acerto só pela forma como o mercado se comporta.
03O que os dados reais de investidores mostram
A matemática mostra o piso teórico. Agora vem a segunda etapa, a pergunta que só dinheiro de verdade pode responder: quando investidores reais entram e saem do mercado — não numa simulação, numa conta de verdade — o resultado bate com essa previsão?
Ilia Dichev4 respondeu essa pergunta no nível mais agregado possível: o mercado inteiro. Ele comparou o retorno "dollar-weighted" — o que o investidor médio efetivamente embolsou, dado o momento em que seu dinheiro entrou e saiu — com o retorno de quem tivesse simplesmente ficado investido o tempo todo. A tabela abaixo mostra a diferença nos dois mercados que ele testou.
| Mercado e período | Retorno do mercado (buy-and-hold) | Retorno do investidor (dollar-weighted) | Diferença |
|---|---|---|---|
| NYSE/AMEX, 1926–2002 | 9,9% a.a. | 8,6% a.a. | −1,3 p.p. a.a. |
| Nasdaq, 1973–2002 | 9,6% a.a. | 4,3% a.a. | −5,3 p.p. a.a. |
Repare que a diferença na Nasdaq é mais que o dobro da NYSE/AMEX, e a razão é fácil de contar: cerca de US$ 1 trilhão entrou na bolsa em 1999 e 2000, no auge da euforia da bolha ponto-com, bem a tempo de pegar em cheio as quedas de quase 40%, 21% e 31% dos três anos seguintes. Dinheiro que chegou tarde, na festa, e saiu tarde, no pânico. E o padrão não é só americano: testando 19 países entre 1973 e 2004, Dichev encontrou a mesma coisa, uma perda média de 1,5 ponto percentual ao ano.
Agora aproxime a lente, do mercado inteiro para cada fundo individualmente. Geoffrey Friesen e Travis Sapp5 encontraram o mesmo padrão em 7.125 fundos de ações americanos entre 1991 e 2004: em média, o investidor de um fundo qualquer fica com 1,56% ao ano a menos do que o próprio fundo rendeu — e essa perda é maior em fundos com taxa de entrada e em fundos ativos do que em fundos sem taxa e em fundos passivos. Mesmo quem investe em fundo de índice erra o timing, só que menos.
O achado mais contraintuitivo do estudo, porém, é outro, e vale parar para absorvê-lo: quanto melhor o fundo, maior essa perda tende a ser. Nos fundos que mais entregam retorno acima do mercado, o ganho de ter escolhido bem é quase inteiramente anulado pela perda de ter entrado e saído na hora errada. Dito de outro modo: escolher um bom fundo não adianta muito se você entra e sai dele no momento errado.
Uma ressalva de honestidade sobre o tamanho desse 1,56% ao ano, calculada aqui a partir da própria tabela anual publicada pelos autores: separando os anos de bolha (1999 a 2002) do resto da amostra, o gap médio nos outros dez anos cai para cerca de 0,18% ao ano. O custo do mau timing não é uma torneira constante pingando 1,56% ao ano — ele se concentra em episódios extremos de euforia e pânico, com anos "normais" custando bem menos.
E um contraponto de rigor, para não exagerar o tamanho do problema: nem todo "gap" divulgado popularmente reflete perda real de patrimônio. Um estudo de 20266 pegou o número mais citado da indústria — o "Mind the Gap" da Morningstar, que reporta cerca de -1,2% ao ano — e separou esse número em duas partes: uma perda real de riqueza, de apenas -0,10% ao ano, e um "efeito de retrospectiva" de -0,07% ao ano, que é só um artefato matemático de como o cálculo pondera fluxos de caixa passados, sem nenhum impacto real na riqueza de ninguém. O mesmo estudo mostra que boa parte da queda do número divulgado pela Morningstar nos últimos anos veio de uma mudança na metodologia de cálculo, não de uma melhora real no comportamento dos investidores. A lição aqui não é que o mau timing não existe — é que o tamanho exato do número popularmente citado merece mais cautela do que costuma receber.
Mercado inteiro, fundos individuais — os dois convergem para a mesma direção, mas ainda são aproximações indiretas do que você, pessoa física, realmente faz com o seu próprio dinheiro. Falta a etapa mais próxima de casa.
04Testando a pessoa física direto, no nível da conta
Chegamos à terceira etapa, e é aqui que a resposta fica mais concreta. O teste mais direto que existe hoje na literatura aplica, na conta real de investidores individuais, o mesmo instrumental estatístico que a academia usa para medir habilidade de timing em gestores profissionais: os testes de Treynor-Mazuy e Henriksson-Merton12. A ideia por trás dos dois é simples de entender, mesmo que o nome não seja: eles comparam o retorno de quem muda de posição ao longo do tempo com o retorno de quem manteve uma alocação fixa e, a partir dessa comparação, calculam se a mudança de posição capturou alta antes de subir e evitou queda antes de cair mais do que o puro acaso já explicaria.
Urbi Garay e Fredy Pulga7 aplicaram exatamente esses testes ao universo completo de investidores de varejo da Bolsa de Valores da Colômbia: 5.380.810 negociações feitas por 42.211 investidores individuais entre 2006 e 2016 — não uma amostra, o universo inteiro de contas de pessoa física naquele mercado no período. O primeiro achado já é revelador: o investidor médio teve retorno anormal (o quanto ficou acima ou abaixo do que o risco assumido justificaria) negativo entre 4% e 4,4% ao ano, um resultado que piora ainda mais quando se descontam custos de transação.
Mas o achado central, para a pergunta deste artigo, é outro: o coeficiente de timing foi negativo e estatisticamente significativo ao longo do período inteiro, tanto em retorno bruto quanto líquido. Ou seja, esses investidores não foram só sortudos ou azarados — a habilidade de timing deles foi mensuravelmente pior do que o acaso.
Uma ressalva de honestidade importa aqui, e o próprio estudo a expõe: dividindo a amostra em dois períodos, antes e depois da falência da maior corretora colombiana (Interbolsa, em outubro de 2012), o efeito negativo de timing é forte e significativo apenas no primeiro subperíodo (2006–2012); no segundo (2012–2016), o sinal muda para positivo e deixa de ser estatisticamente significativo. Os próprios autores levantam a hipótese de que os piores "timers" simplesmente não sobreviveram como clientes ativos depois do colapso da corretora — o que enfraquece um pouco a generalização do achado como uma constante ao longo do tempo, ainda que não mude a conclusão para o período em que o efeito foi medido com solidez.
Esse resultado é o mais próximo que a literatura chega hoje de responder à pergunta original deste artigo com dado real de conta de pessoa física, testado com o instrumental estatístico correto — sem ser um teste indireto via fundo, giro de carteira ou newsletter. Ele confirma, com evidência direta, o que os capítulos anteriores já sugeriam de forma indireta: não é falta de sorte, é habilidade de timing mensuravelmente negativa.
05Por que as pessoas erram o timing
Até aqui, os números mostram o quê. Esta seção trata do porquê — os dois canais comportamentais mais bem documentados por trás desse padrão.
O primeiro é o excesso de confiança combinado com giro excessivo de carteira. Brad Barber e Terrance Odean8 analisaram 66.465 famílias clientes de uma grande corretora de desconto entre 1991 e 1996, e dividiram os investidores por intensidade de negociação.
O resultado: quem estava no quinto de maior giro (mais de 8,8% de giro mensal de carteira) obteve 11,4% ao ano líquido de custos, contra 18,5% ao ano de quem estava no quinto de menor giro — uma diferença de 7,1 pontos percentuais ao ano. O detalhe crucial é que essa diferença não vem de escolher ações piores: o retorno bruto (antes de custos) dos dois grupos é praticamente igual. A diferença inteira vem de custo de transação e frequência de negociação, atribuída pelos autores a excesso de confiança — a crença de que se sabe mais do que de fato se sabe sobre a hora certa de agir.
O segundo canal é mais específico, e mais visível para quem já passou por uma crise de mercado: a venda em pânico. Um estudo de 20229, conduzido por pesquisadores do MIT, analisou 653.455 contas de corretora pertencentes a 298.556 famílias americanas entre 2003 e 2015. Os autores definiram, com um critério objetivo, o que é uma "venda em pânico": queda de pelo menos 90% do valor em ativos de risco da carteira em um único mês, sendo pelo menos metade dessa queda explicada por venda líquida — não só pela desvalorização do mercado.
É um padrão raro: cerca de 0,10% das contas fazem isso num mês típico. Mas dispara para até três vezes essa frequência em meses de forte queda de mercado, como Lehman Brothers, o TARP e o Flash Crash de 2010.
Do total de 36.374 vendas em pânico identificadas, 26.852 famílias (9,0% de toda a base) fizeram isso pelo menos uma vez ao longo dos treze anos analisados. E 30,9% delas nunca mais voltaram a investir em ativos de risco.
O achado mais interessante do estudo, porém, é que ele resiste à tentação do julgamento fácil. O retorno mediano de quem vende em pânico, somando todos os episódios, é zero a levemente negativo — nem uma tragédia, nem um golpe de sorte. Isso esconde uma divisão real: em mercados que continuam se recuperando depois da venda, o investidor perdeu dinheiro por sair cedo demais; em mercados que continuam caindo de forma prolongada, a venda funcionou como uma espécie de stop-loss, evitando perdas maiores. O problema é que essa distinção só fica visível depois do fato — no momento da decisão, ninguém sabe qual dos dois cenários vai se realizar. E há uma ressalva que os próprios autores fazem, com honestidade: o estudo não tem como distinguir se a venda foi motivada por medo do mercado ou por necessidade real de dinheiro, como a perda de um emprego ou uma emergência. Ele documenta o padrão de comportamento com precisão, mas não consegue isolar a causa por trás de cada venda individual.
06Nem os profissionais pagos para isso conseguem
Uma objeção natural até aqui é que talvez o problema seja só de quem investe sem apoio — talvez quem segue orientação profissional se saia melhor. A evidência disponível não sustenta essa esperança.
John Graham e Campbell Harvey10 testaram 326 estratégias de alternância entre ações e títulos de curto prazo, extraídas de 132 newsletters especializadas em prever o mercado, entre 1983 e 1995 — justamente o produto vendido a quem quer terceirizar a decisão de timing. Usando uma medida rigorosa e ajustada a risco (chamada GH1 no estudo), apenas cerca de 17,6% das estratégias tiveram desempenho acima de uma fronteira eficiente de referência — ou seja, a grande maioria não superou o que seria esperado por puro acaso. Havia sim alguma persistência de curto prazo entre as newsletters "quentes" (que tinham acabado de acertar), mas simulações de Monte Carlo mostraram que esse padrão é inteiramente consistente com sorte, e não prediz desempenho futuro.
Esse resultado fecha o quadro de forma coerente com tudo o que veio antes: nem investidor individual, nem fundo, nem profissional pago especificamente para prever a direção do mercado sustenta uma taxa de acerto acima da barra que Sharpe calculou em 1975 — pelo menos sete em dez.
07Existe alguma versão do timing que "funciona"?
Vale uma pergunta final antes de fechar o quadro: será que, sob algum critério, tentar cronometrar o mercado faz sentido — mesmo sem melhorar o retorno esperado?
Hubert Dichtl, Wolfgang Drobetz e Lawrence Kryzanowski11 testaram exatamente isso, com uma simulação de bootstrap (um método estatístico que reamostra os dados históricos milhares de vezes para estimar a distribuição de resultados possíveis) rodada 500 mil vezes, comparando um "timer simulado" com taxas de acerto de 52%, 55% e 58% contra buy-and-hold, sob diferentes modelos de preferência do investidor. Sob utilidade esperada clássica — o modelo padrão de decisão racional em finanças —, o timing só compensa a partir de uma taxa de acerto de pelo menos 58%, um patamar próximo ao que Sharpe já havia calculado quatro décadas antes.
Mas, sob a teoria da perspectiva — o modelo que descreve como as pessoas de fato sentem ganhos e perdas, não como deveriam senti-los — e em horizontes curtos de avaliação, olhando o resultado a cada mês ou a cada ano em vez de olhar só o fim do período, o timing pode parecer mais atrativo psicologicamente mesmo sem melhorar o retorno real esperado. Esse efeito, porém, desaparece quando o horizonte de avaliação passa de cinco anos: quem avalia a decisão olhando de longe não sente essa vantagem ilusória.
A leitura honesta desse resultado não é que o timing "funciona sob certas condições" — é que ele pode parecer preferível para quem avalia resultado com muita frequência, mesmo sem entregar nenhum ganho de retorno real. É a mesma armadilha psicológica de curto prazo, olhando por outro ângulo, que explica por que tanta gente continua tentando cronometrar o mercado apesar de toda a evidência contrária.
08O que fazer com isso na prática
Até aqui, este artigo diagnosticou o problema. Falta a parte que realmente importa: o que fazer com essa informação na segunda-feira de manhã, quando o mercado balançar de novo.
- Trate qualquer intuição de "hora certa de comprar ou vender" com ceticismo: a barra de acerto necessária para o timing compensar (pelo menos sete em dez, segundo Sharpe) é mais alta do que qualquer grupo testado — pessoa física, fundo ou newsletter — conseguiu sustentar de forma consistente.
- Separe, na sua própria cabeça, "seguir uma alocação definida com rebalanceamento programado" de "reagir ao humor do mercado". A primeira é gestão de risco; a segunda é a tentativa de timing que a evidência deste artigo mostra que não compensa.
- Se um evento de mercado te deixar tentado a vender tudo, pergunte primeiro se a motivação é uma necessidade real de dinheiro (perda de renda, uma emergência) ou medo do movimento do mercado em si — são duas decisões diferentes, e só a primeira tem uma justificativa que não depende de acertar o timing.
- Desconfie de qualquer comparação que avalie sua decisão de investimento olhando só o retorno do mês ou do ano corrente — a vantagem psicológica aparente do timing só existe em horizontes curtos de avaliação, e desaparece quando o horizonte passa de cinco anos.
- Se você usa um fundo ativo, lembre que escolher um bom fundo não neutraliza o risco de errar o timing de entrada e saída — a correlação entre alfa do fundo e perda de timing do investidor é alta o bastante para anular boa parte do ganho de uma boa escolha de fundo.
09Recapitulando
Dez estudos, três décadas e meia de dados, um único fio conduzindo tudo: da matemática pura à conta real de investidor, a resposta não muda. Eis o que fica.
- A pergunta que a ciência testa não é "existe uma sequência de decisões que teria dado certo", mas "existe habilidade repetível de prever a direção do mercado, testada fora da amostra que a descobriu" — e a resposta, hoje, é não.
- Mesmo sem nenhum viés comportamental, a matemática já rema contra o timing: é preciso acertar pelo menos sete em dez vezes (Sharpe, 1975) e superar, de forma consistente, mais de 80% de todos os caminhos possíveis de troca aleatória (Bauer & Dahlquist, 2001).
- Dados reais de mercado e de fundo confirmam o padrão: o investidor médio perde de 1,3 a 5,3 pontos percentuais ao ano frente ao buy-and-hold, dependendo do mercado (Dichev), com o custo concentrado desproporcionalmente em episódios de bolha e pânico, não distribuído igualmente ano a ano.
- O teste mais direto que existe hoje — aplicado à conta real de 42.211 investidores de varejo colombianos — encontra habilidade de timing negativa e estatisticamente significativa, com a ressalva honesta de que o efeito não se confirma no subperíodo mais recente da amostra.
- Dois canais comportamentais explicam boa parte do problema: excesso de confiança combinado com giro excessivo de carteira, e venda em pânico durante crises — um padrão distinto, mensurável, mas cuja causa exata (medo vs. necessidade real de dinheiro) a literatura ainda não consegue isolar por completo.
- Nem os profissionais pagos especificamente para prever o mercado — autores de newsletters de asset allocation — sustentam uma taxa de acerto acima da sorte, de forma consistente.
- Existe uma versão do timing que pode parecer preferível, mas só sob preferências comportamentais e horizontes curtos de avaliação — e mesmo essa vantagem aparente desaparece em horizontes de cinco anos ou mais.
O que você pode aprender na sequência?
Se a conclusão deste artigo te deixou mais confiante em ficar sempre investido, esses dois artigos ajudam a decidir os próximos detalhes práticos.
- SHARPE, William F. Likely gains from market timing. Financial Analysts Journal, v. 31, n. 2, p. 60-69, mar./abr. 1975.
- BAUER, Rob J.; DAHLQUIST, Julie R. Market timing and roulette wheels. Financial Analysts Journal, v. 57, n. 1, p. 28-40, jan./fev. 2001.
- METCALFE, Andrew. The mathematics of market timing. arXiv:1712.05031, dez. 2017. Preprint, sem revisão por pares — citado aqui apenas como ilustração matemática (assimetria da distribuição de retornos compostos), não como evidência empírica independente.
- DICHEV, Ilia D. What are stock investors' actual historical returns? Evidence from dollar-weighted returns. American Economic Review, v. 97, n. 1, p. 386-401, 2007.
- FRIESEN, Geoffrey C.; SAPP, Travis R. A. Mutual fund flows and investor returns: an empirical examination of fund investor timing ability. Journal of Banking & Finance, v. 31, n. 9, p. 2796-2816, 2007.
- FULKERSON, Jon A.; JORDAN, Bradford D.; RILEY, Timothy B.; YAN, Xuemin (Sterling). Bad timing does not cost investors 15% of their funds' returns: an examination of Morningstar's "Mind the Gap" study. Financial Analysts Journal, no prelo, 2026.
- GARAY, Urbi; PULGA, Fredy. The performance of retail investors, trading intensity and time in the market: evidence from an emerging stock market. Heliyon, v. 7, n. 12, e08583, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2021.e08583.
- BARBER, Brad M.; ODEAN, Terrance. Trading is hazardous to your wealth: the common stock investment performance of individual investors. The Journal of Finance, v. 55, n. 2, p. 773-806, 2000.
- ELKIND, Daniel; KAMINSKI, Kathryn; LO, Andrew W.; SIAH, Kien Wei; WONG, Chi Heem. When do investors freak out? Machine learning predictions of panic selling. The Journal of Financial Data Science, v. 4, n. 1, p. 11-39, 2022. DOI: https://doi.org/10.3905/jfds.2021.1.085.
- GRAHAM, John R.; HARVEY, Campbell R. Grading the performance of market-timing newsletters. Financial Analysts Journal, v. 53, n. 6, p. 54-66, 1997.
- DICHTL, Hubert; DROBETZ, Wolfgang; KRYZANOWSKI, Lawrence. Timing the stock market: does it really make no sense? Journal of Behavioral and Experimental Finance, v. 12, p. 62-76, 2016. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jbef.2016.09.001.
- HENRIKSSON, Roy D.; MERTON, Robert C. On market timing and investment performance II: statistical procedures for evaluating forecasting skills. The Journal of Business, v. 54, n. 4, p. 513-533, 1981. Paper metodológico — fornece o teste estatístico (Henriksson-Merton) usado por Garay & Pulga (2021) para medir habilidade de timing; não é fonte de nenhuma alegação empírica própria neste artigo.
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